Adeus, Pai*

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“Andava no banco de trás de um carro grande, luxuoso, que não era meu. Quando o meu pai ia-me buscar à escola, os outros miúdos ficavam a olhar. E eu sorria ligeiramente. Quando se é criança, estas coisas são importantes. Tanto como ter roupa de marca e a consola da moda. O carro era do patrão do meu pai, um importante empresário.
Antes deste emprego, o meu pai era taxista. Quando o motorista dele morreu de forma repentina, uma das empregadas do senhor, amiga da minha mãe, sugeriu o nome do meu pai. Depois de uma breve conversa, ficou com o emprego. Para trás, tinham ficado noites e noites ao volante de um Mercedes com 20 anos, três tentativas de assalto e uma facada que o fez levar cinco pontos no braço. O atacante, esse, ficou em muito pior estado. O meu pai é daqueles velhos rijos, que não vira a cara à luta. Que no trânsito, à mínima apitadela, quer logo sair do carro e pedir satisfações. Quando fui assaltado, em miúdo, perto da escola, foi-me buscar todos os dias até nos termos cruzado com o drogado que me tinha levado o dinheiro e relógio. Foi atrás dele o máximo que conseguiu. Não o apanhou, porque o tipo corria que se fartava, mas sempre que depois me cruzava com o tipo, ele mudava de passeio. Senti-me importante. Amado incondicionalmente. Feliz por saber que ele, meu pai, defendia-me contra tudo e todos. Fiquei a desejar conseguir fazer isso com os meus filhos. Dizem que é natural. Não sei se é. Para o meu pai sempre foi.
O telefone toca bem cedo. É a minha mãe, em pânico, a chorar e mal percebo o que diz. Não consegue acordar o meu pai, por mais que o abane. Ele não se mexe, diz-me. Nunca demorei tão pouco tempo da minha casa até à deles. A ambulância já lá está. Os vizinhos a espreitarem também. Morreu a dormir, dizem-me. Algo fulminante no cérebro, suspeitam. Não reajo. Não choro. Não digo nada. Procuro a minha mãe que está na cozinha a fazer um chá que ninguém lhe pediu e que ela também não quer. Abraço-a e ela chora. Chora. Ralha com Deus por não a ter levado a ela. Ralha comigo por já não os visitar há algum tempo. Ralha com o meu pai por a deixar sozinha. E depois cala-se. E bebe o chá.
Nunca pensei no que é preciso fazer para tratar de um funeral. Lembro-me que a mãe do Zé morreu no ano passado e ligo-lhe. Conto-lhe do meu pai, ele dá-me as condolências e sugere-me a agência funerária que usou, colocando-se à minha disposição para o que precise. O Zé sempre foi o preferido do meu pai. Uma boa influência para mim, achava ele. Muitas vezes, o Zé ia connosco à bola quando éramos miúdos. O pai dele era do Sporting e nem por amor ao filho ia ver jogos do rival. No caminho de regresso a casa, falávamos os três sobre as incidências da partida, quem tinha jogado bem e mal. Para o Zé, esses momentos enchiam-lhe a alma. Para o meu pai, a felicidade dele estremecia-lhe o coração. Era um bom homem, o meu pai. Adeus, Pai. Vou ter saudades tuas e desculpa não ter sido melhor filho. Tu merecias.”
* (excerto de um futuro livro, ou então não)

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