Miguel Gonçalves. Diz o que ninguém gosta de ouvir

Há cerca de nove anos, fui a uma entrevista de emprego. Do outro lado estava aquele que viria ser o meu futuro chefe, mas nessa altura eu ainda não sabia. A entrevista foi marcada para as 15h. Chegando lá, ele diz: “ainda não almocei, porque as entrevistas de manhã demoraram mais tempo do que pensava”. A primeira coisa que me veio à cabeça nesse momento foi: “bem, algo me diz que isto vai ser rápido, porque ele deve estar com fome”. Enganei-me. Estivemos perto de duas horas à conversa. As perguntas que me foi fazendo em pouco estavam relacionadas com o meu CV, ou com o meu passado profissional até esse momento. O mais importante para ele, percebi depois, era perceber a minha essência enquanto pessoa. Se já estava cheio de manias, ou era humilde e sem medo de trabalhar (foi, de longe, o melhor chefe que tive até hoje e votava nele para primeiro-ministro. O país bem precisa de alguém como ele). Lá pelo meio, disse-me que os entrevistados nem sempre têm noção de algumas coisas básicas, como terem endereços de e-mails pouco profissionais, do mau aspecto que dá chegarem atrasados às entrevistas ou terem erros ortográficos nos currículos. Isto tudo para chegar a Miguel Gonçalves, o embaixador do programa Impulso Jovem, que deu uma entrevista ao jornal i. A citação puxada para título está a deixar muita gente indignada: “Muitos dos desempregados não querem trabalhar ou são maus a fazê-lo”. Percebo que ele esteja a generalizar e, quem está no desemprego sem nenhuma perspectiva à vista, sente-se ofendido, mas na realidade, há muitos casos assim. “Recebes um email de uma caixa de correio que se chama xanitaloirinha79 @hotmail.com. O assunto é “FW: candidatura espontânea”, com x. um email cheio de erros ortográficos. Tu queres trabalhar com esta pessoa? Às vezes, as pessoas pensam que os desempregados são pessoas extraordinariamente focadas, profissionais, rigorosas, cheias de fibra, de atitude e competência. Não são. É mentira”, pode-se ler ainda na entrevista de Miguel Gonçalves ao diário, e esta resposta também está chocar os portugueses mais sensíveis. Aliás, se há característica muito nossa, essa é a facilidade com que nos ofendemos com as opiniões das outras pessoas. Parece que a carapuça nos serve sempre. Se calhar, o problema é mesmo esse…

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