“Quando chegar aos 40, acabou a prostituição para mim”

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A dupla vida de Clarisse acaba aos 40 quando tiver tudo o que sempre quis. A brasileira atende os clientes em vários apartamentos de Lisboa, entre as 10hoo e as 19h00. Depois disso, vai para a casa ter com os filhos e com o companheiro, que não sabem de nada.

Clarisse chegou a Portugal no princípio de 2010 e começou a trabalhar num bar de alterne, na região da Grande Lisboa. Nada de sexo. Pôr os clientes a beber foi tudo o que lhe pediram. Ela aguentou noites inteiras a Seven Up, ouvindo homens de todos os feitios a beber e a falar das mulheres deles, dos filhos, das chatices do trabalho, de tudo e de nada. Durante 11 meses trabalhou de noite, dormiu de dia, juntou um pé-de-meia, mas dinheiro a sério não acontece da noite para o dia. Pelo menos sem sexo,a acreditar pelo que lhe disse uma das “meninas” a trabalhar num apartamento: “Se queres ganhar muito e depressa, esse é o caminho mais rápido.”

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Foi então à procura desse caminho e encontrou-o nos apartamentos de Lisboa que agora paga ao dia. Às vezes é no centro da cidade e outras vezes na periferia. Onde for mais conveniente para ela e para quem procura os seus serviços. Trabalha sozinha, não presta contas, nem divide os lucros com ninguém. “O dinheiro é bom, o sexo também, os dois ao mesmo tempo é ótimo”, diz ela, repetidamente, como se tivesse achado o lema de vida que melhor lhe assenta.

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Outras mulheres, se calhar, não são capazes de dizer isso à descarada. Mas ela não tem qualquer problema. Dinheiro rápido é o objetivo dela. Não é para esbanjar sem pensar no que vem depois. É para guardar, para comprar casa, carro e tudo o mais o que for preciso. Poucas, mas mesmo muito poucas têm esse feitio. A esmagadora maioria estoura dois ordenados mínimos em menos de nada. Em cada cinco mil mulheres, quatro ou cinco serão poupadas e atinadas como ela, é o que diz. Talvez porque entrou já tarde nesta vida. Tinha 30 anos, quase a fazer 31, com idade para ter juízo, portanto.

Hoje tem tudo o que quer e não teve de esperar. Ao fim de um ano comprou uma casa, em Goiás, e trouxe os filhos para junto dela. Dois anos mais tarde comprou uma segunda casa e depois ainda outra, também no Brasil. Um apartamento é para o filho, com 15 anos, outro para a filha que tem 13 e o último para ela. Já não tem mais de se preocupar com o depois, nem tão pouco com os estudos dos miúdos. As poupanças chegam até à universidade deles. Mais uns anitos e não precisa de continuar a anunciar sexo nos classificados e na net com a idade aldrabada. “Quando chegar aos 40, acabou”. E até lá não precisa de se esfalfar. Tem um horário inflexível, das 10h às 19h, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Há dias muito ocupados com oito e nove clientes e outros dias quase vazios, com quatro ou cinco a preencherem a agenda organizada com antecedência sempre que possível.

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As entradas e saídas do apartamento são tal e qual como as de um hotel, com épocas alta e baixa. Agosto é um corrupio, janeiro é fraquinho e fevereiro é um tédio de morrer. Não é motivo de queixume. Nem se atreve. Os clientes permitiram-lhe cumprir os planos tal qual os imaginou no Brasil. Quase sem esforço. Só lhe custa mentir, insiste. É o pior de tudo. Às vezes, “baixa um mau pressentimento de que um dia alguém vai descobrir”. Mas, logo depois, sacode o corpo para espantar o mau agoiro e atende mais uma chamada no telemóvel: “Oi, me conta meu bem, do que você precisa…

 

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