Tempo. Aliado do erro e inimigo da memória

relogio

O tempo passa a correr. Quando estamos de bem com a vida ou deprimidos e angustiados. É um facto que todos os dias têm as mesmas horas, e as horas os mesmos minutos e estes por sua vez os mesmos segundos. Mas o tempo voa na mesma. Voa e avança e não volta atrás. Mas mesmo assim, e perante esta verdade imutável, as pessoas pedem que o tempo volte atrás. Que recue. Que lhes dê uma oportunidade de emendar os erros que cometeram, as más decisões que tomaram. O tempo é maior aliado do erro e o maior inimigo da memória, porque nunca vamos conseguir corrigir o que fizemos de errado e nunca nos vamos esquecer do erro que cometemos. E isto tudo é uma grande infelicidade. O presente amanhã é passado e não se repetirá mais. Há pessoas que não vivem o presente, porque estão agarradas ao passado, outras só pensam no futuro, porque o presente não lhes agrada. Mas no final, tudo o que temos é o momento em que estamos. E esse momento é tao desvalorizado como os golos do Cardozo e a beleza interior nas pessoas feias.
O ser humano vive para desejar o que não tem. O que não viveu. As vidas que temos nunca são suficientemente boas. Se estamos solteiros, queremos ter uma relação. Se estamos comprometidos, queremos estar sozinhos. Se temos um carro bom, queremos um melhor. Se sai um novo iPhone, o nosso telemóvel deixa de ser o último grito da tecnologia. Se um amigo compra uma casa maior, a nossa de repente parece pequena. O ser humano é uma esponja da vida dos outros. Não o faz por ciúmes ou por inveja. Se bem que há muitos invejosos por aí, é um facto. Fá-lo sim porque é algo inerente à nossa condição. Vivemos incompletos a maioria do tempo. Infelizes, mesmo quando estamos felizes. E são as pessoas que mais apregoam e dizem bem alto que estão felizes, as piores.  São as que precisam de verbalizar a todo o momento o quão estão bem com a vida, as mais infelizes. Porque os outros, aqueles que não se calam sobre a sua infelicidade e azares, esses pelo menos ficam aliviados por desabafarem. Ficam mais leves, ao mesmo tempo que carregam os outros com a sua negatividade.
São poucas as pessoas corajosas o suficiente para viverem o dia. Para aproveitarem o céu sem nuvens, sem exigir mais sol. Para verem o lado positivo em dormir com outra pessoa numa cama de solteiro, em vez de desejar uma de casal. Para contentarem-se com um t1 na Damaia, que está pago, em vez de quererem comprar um t2 em Alvalade que há-de ser sempre do banco.  As pessoas que não pedem nada além do que têm são as que têm tudo. Estas pessoas não vivem agarradas a erros do passado. Não vivem a pensar em pessoas que passaram pelas vidas delas. E não ficam a sonhar com o futuro. Porque elas sabem que quanto mais felizes forem no presente, melhor será o dia de amanhã. Não conheço muita gente assim. Eu nunca fui uma delas.

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